Sou fervoroso incondicional defensor e inveterado praticante da pontualidade.
É um tema recorrentemente penoso, para mim e sobretudo para os que mais de perto convivem comigo, pois sou acerbo e inexorável critico à falta de pontualidade.
Passou-se este Sábado com os meus filhotes, mais uma vez. Cheguei, como é meu hábito sensivelmente 10 minutos antes da hora que havíamos combinado de comum acordo, no dia anterior, ir busca-los a casa da mãe, às 10:00 horas. Não obstante os meus esforços através do telefone, (antes, durante e depois da hora marcada) acabei por ter de esperar quase 35 minutos para além da hora combinada.
Este procedimento, já classificado mais que uma vez, como obsessão, não passa de uma disciplina que assenta num principio simples, que o nosso querido professor Moniz Pereira, classifica como uma ofensa pessoal.
Cedo aprendi e ao longo dos anos me tem servido de referencial, uma experiência ocorrida no meu primeiro emprego. Aconteceu em 1963, era então trabalhador-estudante. Nesse dia,e por impossibilidade do meu chefe, o Augustin Fernandez, fui encarregado de acompanhar um americano (cujo nome já não me recordo) da Pratt & Whitney, fabricante, entre outras coisas, dos reactores do Boeing 707.
A missão era simples, pois tratava-se de ir busca-lo ao hotel Tivoli, na Avenida da Liberdade e leva-lo à TAP, no aeroporto de Lisboa. Isto para dar cumprimento a uma reunião marcada, atempadamente, com o Comandante Roger de Avelar, e, após a mesma, voltar com ele ao escritório.
A entrevista estava agendada para a 09:00 horas da manhã com uma duração máxima de 1 hora, igualmente definida , aquando da marcação.
Por muito que se estranhe, já naquela altura, atravessar Lisboa de automóvel era uma aventura. Por falta de experiência e à boa maneira portuguesa calculei que 30 minutos seriam mais que suficientes para, atempadamente, chegar à entrevista. Assim, às 08:30 lá cheguei ao hotel tendo arrancado de imediato com o homem da P&W.
Para além do tráfego infernal até ao aeroporto e demora na recepção (por acumulação de visitantes) à entrada do espaço da TAP, facultando dados pessoais à segurança, chegámos ao gabinete do comandante Avelar às 09:20H.
Após anúncio de chegada, a sua secretária introduziu-nos de imediato na sala de reuniões,contigua ao gabinete de trabalho. Após os cumprimentos e as minhas esfarrapadas desculpas pelo atraso, o comandante Avelar, em tom solene, disse simplesmente: caros senhores, esta entrevista estava programada para durar 60 minutos. Considerando o vosso atraso, a mesma fica restrita a 40 minutos.
E durou de facto só 40 minutos, sem direito a um minuto de extensão que fosse.
Foi uma lição que nunca mais esqueci, mantendo, ainda hoje, uma metodologia simples: prefiro chegar meia hora antes do que cinco minutos atrasado. Por esse facto, considero a falta de pontualidade um défice de consideração, tal como o professor Moniz Pereira, uma ofensa pessoal.
A este propósito, recordo igualmente um caso, citado pelo nosso saudoso Raul Solnado, como ocorrido com ele próprio.
Ele teria um espectáculo marcado no Porto. Por uma questão de comodidade e rapidez, terá optado ir de avião, nesse mesmo dia, em voo com suficiente tempo que lhe daria até para comer qualquer coisa antes do programado espectáculo.
Todavia, devido a um dos costumeiros e aborrecidos nevoeiros que usualmente, naquela época do ano ocorriam, o voo teve um atraso significativo, implicando que o Raul não chegou à hora marcada. Efectuou, da melhor forma que lhe foi possível, uma apresentação de desculpas ao público que pacientemente o havia esperado, enfatizando a responsabilidade da instabilidade meteorológica, justificação que terá sido maioritariamente aceite pela assistência, à excepção de um dos presentes sentado, algures na plateia, que disparou: Prá próxima vê se vens no dia anterior!
Por experiência, sobretudo profissional, devo confessar, que me é frustrante e doloroso constatar que ainda hoje a falta de pontualidade é (re)corrente, usual, quase sistémica quer em Portugal, quer no resto da Europa de expressão latina, com especial incidência em Espanha, França e Itália. Ao contrário, pela prática colhida, onde encontrei maior rigor com a pontualidade foi na Alemanha, à frente, com destaque da Inglaterra, secundados pela Bélgica e países nórdicos.






