Estive ontem com o médico para inspecção da visão, que era suposto ter melhorado.
Não vos dar pormenores, mas fartei-me de levar na cabeça e a confirmação de que o meu olho direito, tem mesmo de descansar, pelo menos até testes mais apurados a efectuar no Hospital da Cruz Vermelha.
Assim, meus Caros e Bons Amigos vou estar uns tempos menos assíduo nos vossos espaços, mais restringido, para bem dos olhitos, sobretudo o direito.
Incondicional amante de toda a música, salvo a sacra e de câmara (nem toda) não posso deixar de admitir ter um carinho muito particular pelo fado.
Primeiro, por ser alfacinha de gema, tendo-o vivido bem de perto, depois porque através dele, grandes poetas têm sido cantados, tornando-os, assim, mais conhecidos.
Para evitar provocar susceptibilidades nortenhas, devo confessar que também no Porto se canta excelente fado, embora aí, a minha experiência, tivesse sido bastante fugaz.
Tive, em parte da minha juventude, o privilégio de viver a noite deambulando pelas catedrais do fado vadio, que se cantava sobretudo no Bairro Alto, Alfama e Mouraria.
Foi todavia no Bairro Alto que mais poisei, sempre com a trupe da Avenida de Roma, arrancando de forma variável e aleatória, dos cafés VáVá, Luanda (por onde poisava entre outros o Paulo de Carvalho) do Londres ou da Mexicana.
Dependendo da disposição e disponibilidades financeiras - sempre escassas - iniciávamos, invariavelmente, a ronda na Praça da Alegria, (Márcia Condessa/Hot Club) subindo por ali acima até ao Bairro Alto.
Ali, ao abrigo de salutar convivência e calor Humano, lá íamos poisando nas diversas tascas, onde, além de se petiscar por módicos preços, se podia ouvir fado até às tantas da noite. Quer os músicos, quer os fadistas eram amadores, sucedendo, na maioria dos casos, serem complementados, por clientes que jeito para a arte possuíam e a executavam, quer a solo quer em acesas e etilizadas desgarradas.
Por vezes lá apareciam, sedentos das mesmas partilhas, a da noite e a do fado, figuras conhecidas de outras áreas,como, por exemplo, o Mário Zambujal e o José Cardoso Pires, entre outros, alguns até fadistas consagrados, nos seus dias de folga.
Não terei certamente memória para mencionar todos os fadistas que naquela época cantavam e que faziam as delícias de quem do fado gostava, mas não posso deixar de mencionar alguns dos que mais apreciei, a começar pelo Alfredo Marceneiro, o Carlos Ramos, a Lucília do Carmo, (mais tarde e presentemente o filho, o Carlos) o Fernando Farinha, a Teresa Tarouca, o Manuel de Almeida, sem, claro, esquecer a Rainha Amália.
Que me perdoem os inúmeros outros que não menciono
Vem isto a propósito, devido a uma coincidência sucedida esta semana.
Não obstante não ter deixado de gostar de fado, constato que me desactualizei bastante, não tendo acompanhado a evolução, a transformação que se foi introduzindo no fado, sobretudo a nível de reposição de valores.
Não a considerando uma fadista de gema, confesso que da nova recente geração de fadistas só me recordo da Marisa e do Camané, por serem os mais badalados em termos de media.
Voltando à coincidência.
Esta semana recebi de um amigo um pps, via email, com o fado “Buzios” da Ana Moura.
Ontem, Sábado, esteve circunstancialmente, cá em casa, a Joana Amendoeira.
Sinceramente confesso que não conhecia nem uma, nem outra.
Depois de ouvir vários fados de ambas, confesso-me totalmente rendido e feliz por esta coincidência, pois sem dúvida que considero, para mim, que descobri duas interpretes de grande qualidade.
Para quem não conhece e, como eu, goste de fado, recomendo veementemente uma incursão pelo YouTube, onde facilmente encontrarão profusa matéria audío-visual, sobre elas.
Para já limitar-me-ei a incluir, para partilha, um vídeo clip de cada uma delas.
Não é sem talento que se chega ao sétimo Golden Globe!
Ela mereceu-os, sem dúvida!
Por isso e por ser um seu incondicional admirador, aqui, modestamente, a homenageio também.
Imagem de Le Figaro. Meryl Streep et son 7e Golden Globe. Là, c’est celui de la Meilleure Actrice dans une comédie en french gastronome dans Julie & Julia, de Nora Ephron.
Porque não fiz o que muitos colegas meus fizeram, com a minha idade - fugir para fora do país - acabei por estar presente, como muitos outros milhares de jovens portugueses, numa das frentes de guerra que o Estado Colonial, mantinha em três países africanos. (designados, na altura, como províncias ultramarinas) .
Recordo-me, que, em Angola, onde estive em serviço, 27 meses o maior medo que se nos deparava, era invariavelmente ter de fazer trajectos rodoviários, quer em colunas militares puras, quer em protecção a colunas de reabastecimento civil, sempre em pisos de terra batida, designadas por “picadas”.
Isto por duas simples razões.
A primeira ser potencialmente vítima da explosão de uma mina anti-carro, a segunda, ser simultaneamente sujeito a uma emboscada.
A segunda poderia suceder sem a ocorrência da primeira, sendo todavia, ambas igualmente letais.
Tratava-se, evidentemente, de uma guerra em que os diferentes povos autóctones locais (de norte a sul, de formas diferentes, diga-se) defendiam a independência do seu território, colonizado durante séculos, condição que viria a ser reconhecida, quando nós, aqui, obtivemos a democracia.
Apelida-los, como o regime político dessa época utilizou, politicamente, designando-os de “terroristas” foi termo com que nunca concordei.
Isto porque, a utilização de minas anti-carro ou anti-pessoais, neste caso, têm de ser consideradas militarmente como normais, num teatro de guerra aberta, não utilizadas para atacar populações civis, mas sim as tropas inimigas.
Após este prólogo, julgo poder expressar o meu mais veemente repúdio pelas técnicas “terroristas” essas sim, “terroristas” utilizadas por diversos movimentos ou facções, alegadamente políticos, religiosos ou o que sejam, utilizando o terror, no uso indiscriminado de bombas em espaços repletos de civis, como meio para atingirem os seus propósitos.
Deverão neste âmbito ser incluídas as acções recorrentes de movimentos como os dos talibãs, no Afeganistão, da ETA no País Basco, (e não só) do agora mais sossegado, IRA na Irlanda, isto claro, sem esquecer a influência, mortífera e nefasta acção - directa ou indirecta - nos diferentes cenários internacionais da Al-Qaeda, não esquecendo outros como as FARC na Colômbia, senhores da guerra e droga espalhados um pouco por todo o Planeta.
Chamem-lhes o que quiserem, mas actos destes, não passam de atentados cobardemente perpetrados, a coberto de alegadas ideologias, politicas ou religiosas, assassinando populações indefesas, humanos, crianças, mulheres e homens.
Assim, claramente, o que repudio frontalmente, e considero que tem de ser duramente combatido é o facto de que esses grupos ainda não se tenham apercebido que continuam a actuar, impunemente, com uma completa ausência de princípios Humanistas, injectando, psicologicamente ideais fundamentalistas, corrosivos, desprovidos de qualquer Essência Civilizacional Fundamental, induzindo e mentalizando jovens a auto-liquidarem-se, assassinando, por arrasto, outros ou a liquidarem directamente milhares de inocentes, que nada têm a ver com os princípios e os valores que alegadamente dizem defender.
Julgo que nenhuma religião, credo religioso ou político, pode impunemente, justificar continuar a matar, estropiar e destruir só simplesmente por seguirem as suas enviesadas leis e credos, considerando que estas, são de per si, justificação para tais actos.
Será que no século XXI, conseguiremos deixar que o terror continue a imperar, deste modo?
Não, certamente que não, mas...
...há que mudar este estado de coisas.
Como?
Não sei, exactamente, mas ...
...suponho, sem grande margem de erro, que terá de ser com duro sacrifício, sobretudo para os que o mal propagam, aos que nada de mal fizeram.
Bolas!
Ou será que, mesmo de bengala, terei de ir à guerra de novo?
Hoje de tarde assisti a uma reportagem da CNN, das muitas que esta estação tem efectuado sobre o Haiti, com um batalhão imenso de repórteres, destacados para o teatro de operações.
Consegui apanhar o nome do repórter Ivan Watson que em directo para os estúdios, com ar consternado, narrava a sua experiência vivida ontem, de uma vítima, entalada entre os escombros, conseguira ainda viva, enviar a um dos seus familiares, que de acordo com esse familiar, dizia:
"Please do your best, do not let me die!"
O repórter, continuou, dizendo que aquela vítima, por impossibilidade atempada de auxilio, havia perecido e sido enterrada hoje, após resgate, passando a emissão para os estúdios, para a colega (da qual não consegui apanhar o nome)
Até aqui, para mim foi mais uma reportagem de um repórter no terreno, empenhado em narrar mais um dos inúmeros casos que ocorreram e continuam, infelizmente a ocorrer naquele flagelado país.
O que sinceramente me emocionou, foi a impossibilidade da pivot, no estúdio, ser incapaz de dizer mais do que:
hã, ok Ivan...
...em voz completamente embargada pela emoção, em frente da câmara, no estúdio, sendo perfeitamente visível as lágrimas que à face lhe afloraram, emissão que rapidamente foi desviada para outro plano, evitando, obviamente, o prolongar de uma situação pungente, inultrapassável, para a pivot.
Provavelmente este episódio, demonstrando forte emoção, chorando em frente da câmara, em termos de jornalismo poderá não ser o mais profissionalmente correcto.
Para mim se-lo-á certamente, mesmo que os manuais digam o contrário