sexta-feira, 22 de março de 2013

Partidos políticos-Descrença e desengano




... ou o fandango das cadeiras

Olhando à nossa volta, quer vendo e escutando as diferentes estações de TV quer lendo os jornais e revistas, nacionais e internacionais, facilmente nos interrogamos sobre a sanidade mental da grande maioria dos responsáveis governantes actuais, sobretudo aqueles que nos dizem mais directamente respeito, nacionais e europeus.

A sua actuação, continua recorrentemente em roda livre na maioria dos casos – com uma oposição que não consegue desligar-se do intento de pretender ser mais do que alternância, em vez de alternativa, embora alegando querer fazer-se crer colada à segunda. Coloca-se portanto na confortável posição de em nada contribuir para a solução dos problemas reais. Pior, rejeita liminarmente entender-se, quer entre si, quer entre os restantes agrupamentos que poderiam gerar alguma massa critica relevante, consequente.

Por seu lado, os governos e sobretudo as forças partidárias que os apoiam, identificadas com a política que exerce o poder, (ensaiando por vezes pseudo- protestos, insipientes e inconsequentes) mantêm-se na luta surda (bem visível) na manutenção dos privilégios anteriormente adquiridos através do voto, com o evidente objectivo, para além da sua manutenção, reconquistar e assegurar o futuro das suas posições, relativas ou absolutas, mesmo que conseguidas em coligação.

É portanto insofismável que com o sistema actual da chamada “Democracia Representativa” que possuímos, a grande maioria dos cidadãos, acaba por não ser minimamente representada ─ grande parte deles votantes dessas mesmas forças ─ sendo por isso, recorrentemente espoliada e violentada nos seus mais primários direitos a começar pelo da cidadania, sem qualquer possibilidade de recurso.

Estes factos, baseados na cega aplicação de princípios partidocráticos, conduz-nos portanto a um estado latente de fraude que redunda num profundo desengano dos cidadãos e da sua concomitante descrença nos partidos políticos e no sistema por eles-próprios perpetrado, vendido pressupostamente (sobretudo durante as campanhas eleitorais) como forma representativa na  intenção da defesa dos  genuínos interesses dos cidadãos votantes.

Assim, há que repensar o sistema actual tendo em vista inverter, ou, porque não, muda-lo radicalmente, abolindo os conluios conclavistas combinados de acordo com os interesses instalados, ou a instalar, sempre cozinhados nos bastidores dos gabinetes pelos cabeça-de-pontificados, antes de as ideias serem plebiscitadas publicamente. Asseguram-se, desse modo, a defesa dos interesses de cada parte integrante, sempre em regime de alternância em sucessão sucessiva de sucessões, que se sucedem sem cessar, salvo se algo suceder em contrário, interrompendo essas ciclo de sucessões  alternantes. 

Se recuarmos um pouco no Tempo, encontraremos filósofos, escritores e gente das franjas de pensadores, todos intelectuais que nos deixaram algumas pistas importantes, sobretudo na interrogação da necessidade de possuirmos um sistema político baseado em partidos políticos, ou, pelo menos, na sua actual forma de representatividade.
Kant, Heidegger, Engels, Breton, Nietzsche, Simone Weil, Deleuse ou Satre entre outros, afloraram este tema por formas, concepções filosóficas e teses diferenciadas, porventura com maior ou menor grau de radicalismo ideológico, demonstrando todavia um fio condutor que os une. Este evidencia-se ao colocarem em questão, por forma mais ou menos explícita, as regras impostas nas sociedades  onde viveram, (totalitárias algumas) sobretudo no que concerne aos sistemas de repartição da riqueza produzida e a constatação factual da completa falência dos diferentes sistemas vigentes à época.


De uma ou de outra forma, colocam em questão a legitimidade existencial do poder organizado partidariamente, (partidocracia) considerando-o um veículo ideal à corrupção e à ditadura das maiorias “democraticamente eleitas.” Teremos de atentar que o sistema criado e desenvolvido ao longo do tempo, é hoje um sistema com um perfeito autofinanciamento perpetrado e legislado pelos próprios parlamentares através da acção votante "activa" dos incautos cidadãos. Esse dinheiro sai, como sabemos, dos orçamentos do Estado, na proporção dos votos recolhidos, logo, do bolso dos  ingénuos votantes.

É evidente que vivemos hoje num sistema algo diferente na forma, mas não no conteúdo. De facto, somos presentemente objecto de um estado de experimentação abusiva da condição sociológica/financeiro/política, conduzidos pela batuta de  grupos de técnicos teóricos, ou por políticos incompetentes ou corruptos, impondo por aplicação cega as suas próprias concepções políticas e ideológicas  a um rebanho de obedientes cidadãos, pacíficos e inertes (seus eleitores ou não) mesmo quando lhes expropriam a quota-parte do que produziram ou do que fruem na velhice já sem produzir, após largos anos de contributo produtivo.

 No início do século XXI, encontramo-nos pois inexoravelmente na situação paradoxal de adormecimento; a grande maioria em estado letárgico, de tal forma apática, que nem sequer entende que é ele-próprio-cidadão a contribuir para a sustentação do sistema e, claro, da sua própria desgraça.
Coloca-se portanto a questão de identificarmo-nos como “nós enquanto cidadãos”, antes de “apoiantes deste ou daquele partido”, partidos que, na prática durante mais de um século, têm contribuído para a exploração do cidadão; em benefício próprio, singular ou das suas máquinas partidárias, seus apoiantes ou ingénuos simpatizantes ou ainda muitas vezes, mecenas em sede-própria ou com expectável futuro-beneficio-próprio. 

É certo que conseguimos neste longo período de tempo melhorar o nível e qualidade de vida dos cidadãos em geral. Esse facto reflectiu, na sua maioria, lutas esforçadas na defesa da sua quota-parte na produção de riqueza criada. Por delapidação inconsciente e leviana, má gestão de recursos e ganância desenfreada, hoje encontramos a classe política dominante-alternante, a tentar espoliar as classes que contribuíram decisivamente na construção de toda a pirâmide produtiva, que eles, políticos, deliberadamente ou não, desmoronaram e continuam claramente empenhados em desmantelar, para protecção do seu bem-estar-próprio e dos seus mentores-beneficiários directos, leia-se, o poderio económico-financeiro.

Estamos assim perante uma necessidade imperiosa de inversão do critério de valores, de paradigma. Não poderemos continuar a permitir que os políticos através dos seus partidos (ou alguns dos seus partidários, à  revelia dos partidos a que pertencem, como se começa a verificar…) façam como Pilatos : “um cidadão a mais ou a menos ─ que importa?” 

Temos que lutar para podermos regressar ao estádio que nos distingue dos animais irracionais: utilizar o primado da inteligência em direcção ao Senso Comum e à Razão; evitando, contornando, vencendo, este estado actual de raciocínios, alegadamente técnicos, mas de facto subtis, armadilhados e falaciosos, sempre com ónus para o vulgar cidadão e benefício para o poder. (…político e financeiro)

Para tal, há que dar um sinal claro, suficientemente perceptível a todos os partidos políticos sem excepção e sobretudo aos” catedráticos” da política. Sem recorrer à violência ou sublevação civil julgo só existir uma forma: demonstrar nas urnas o repúdio ao sistema, não votando em nenhum dos partidos existentes. 
Claro que os habituais clientes partidários, ou aspirantes a tal, votarão sempre. Mas não chegarão por certo para garantirem, sozinhos, uma representatividade efectiva. Uma atitude destas implicará por certo a reflexão dos partidos em aceitar ─ com a humildade que lhes tem faltado ─ a imperiosa necessidade de considerar o cidadão fora do âmbito clientelar da partidocracia, falando, discutindo em conjunto entre-si, por forma a encontrarem formas consensuais na resolução dos reais problemas do País. 

Estará nas nossas mãos que tal se venha a realizar!.